A motivação é um ecossistema neurobiológico que emerge da interação entre emoção, cognição e ação. Não é um traço fixo mas um estado interno que pode ser facilitado ou bloqueado pelo contexto.
O cérebro humano está orientado para a sobrevivência, recompensa e significado. Por isso, dá prioridade à poupança da sua energia para o essencial, questionando-se sobre se: “vale a pena investir energia nisto?”
E a resposta ao cérebro vai depender da motivação e da consciência de que qualquer mudança ou novidade vai exigir mais energia, mais combustível para o caminho, mais foco e atenção, saindo do “modo piloto automático para manual”. Os principais sistemas neurais que intervêm no processo da motivação são:
- Sistema Límbico (emocional)
→ segurança, pertença, ameaça. - Córtex Pré-frontal (cognição)
→ propósito, planeamento, autocontrolo. - Sistema de Recompensa (dopamina)
→ antecipação, curiosidade, impulso para agir.
A dopamina é um neurotransmissor conhecido como a molécula da motivação e que atua como o seu combustível, gerando movimento. Ativa-se antes da recompensa e responde ao progresso visível em cada etapa, à aprendizagem durante a jornada, à novidade e ao feedback. Consequentemente, em ambientes com pouco ou mesmo sem feedback, o cérebro entra em modo de poupança energética e fica mais permeável a estados de desmotivação. Para além disso, o cérebro aprende e colabora melhor quando se sente seguro e respeitado, em vez de ameaçado. Portanto, não podemos ser enganados por falsas motivações por pressão e medo que conduzem ao cansaço constante e ao sentimento de estar a ser manipulado. A motivação por pressão está associada à produção de cortisol, à visão de curto prazo, à reatividade e exaustão. Contrariamente, a motivação sustentável está associada à regulação emocional, compromisso a longo prazo e à criatividade.
Mas como ativar a motivação no dia a dia?
Comece por si, clarifique o sentido da sua vida e invista em aumentar os seus níveis de energia. Isso passa por estabelecer ritmos de recuperação adequados: sono com qualidade, boa alimentação e hidratação, respiração consciente, exercício físico, pausas estratégicas, proximidade à natureza e meditação. É uma fórmula simples mas exige muita disciplina e determinação e é frequente precisar de algum apoio inicial. Se for o caso não hesite, aceite-o como um acelerador evolutivo.
E como motivar equipas de alta performance?
Muitas empresas lutam para implementar estratégias que impulsionem a motivação e o compromisso das equipas e de ambientes adequados à sua maximização.
Para o fazerem e criarem um clima de trabalho favorável à motivação, é necessário conhecer e saber aplicar princípios da neurociência na liderança. Assim poderão estimular a libertação de neurotransmissores “positivos”, como a dopamina e a serotonina, reduzindo a frequência, intensidade e duração de stress elevado e de ansiedade. Para além desta base científica, é preciso trabalhar diversos componentes que influenciam e favorecem a motivação das equipas – pois usar apenas discursos inspiradores não é suficiente. Aqui ficam algumas dicas:
- Clarificar o propósito comum (porque isto importa?);
- Definir desafios e metas realistas e baby-steps para os alcançar;
- Estimular a autonomia e a criatividade com responsabilidade;
- Dar feedback frequente, positivo e humano;
- Fomentar o Bem-estar das pessoas através do balanço vida-trabalho, com pausas de recuperação e maior proximidade à natureza;
- Promover a conexão social e um ambiente de trabalho colaborativo.
Como mensagem final salientar que, apesar do líder ser um regulador de contexto e não um “motivador individual”, as equipas motivadas com sustentabilidade são uma consequência de lideranças mais conscientes e empenhadas no bem-estar e no desenvolvimento humano.
Ana Paula Queiroga