Entre o Ruído e a Natureza – o som como elemento de planeamento urbano

Apesar das vantagens evidentes, integrar paisagens sonoras restaurativas nas cidades não é algo simples. As cidades são cada vez mais densas, o preço do solo urbano continua a aumentar e o tráfego automóvel domina grande parte do espaço e do tempo da vida urbana quotidiana. Tudo isto dificulta a criação de ambientes onde os sons naturais consigam realmente destacar-se. Além disso, o som ainda é muitas vezes negligenciado no planeamento urbano, quando comparado com aspetos visuais ou funcionais.

Mesmo assim, começam a surgir algumas mudanças interessantes em várias cidades. A criação de “zonas tranquilas”, de corredores verdes e de parques, pensados também do ponto de vista sonoro, mostra que é possível intervir no ambiente acústico de forma intencional. Há estudos que sugerem que a presença de sons naturais, mesmo em contextos urbanos, ajuda a melhorar a forma como as pessoas percecionam o espaço e contribui para o seu bem-estar. Em paralelo, têm sido desenvolvidas ferramentas digitais, como mapas sonoros participativos, que permitem às pessoas identificar locais mais agradáveis ou mais problemáticos em termos de som, ajudando a tomar decisões mais informadas.

Outro aspeto importante é que a forma como o som é vivido não é igual para todos. Diferentes comunidades podem ter perceções muito distintas sobre o que é um ambiente sonoro agradável. Isto torna essencial envolver os cidadãos nos processos de planeamento urbano, em vez de assumir uma abordagem única e uniforme.

Esta diferença entre ambientes sonoros mais naturais e outros mais agressivos também aparece de forma clara no poema Island Man, de Grace Nichols. No início do poema, o poeta transporta o leitor para uma ilha onde os sons são calmos e naturais: o mar em movimento, as gaivotas e as vozes dos pescadores criam uma sensação de paz e ligação ao lugar. No entanto, essa imagem é interrompida quando surge a realidade da cidade, marcada  por trânsito, e outros ruídos que interromperem o sonho do homem. Aqui, o contraste é muito forte: de um lado, um ambiente sonoro equilibrado e natural; do outro, um mundo urbano dominado por ruído constante e mecânico.

Tal como no poema, também na vida das cidades atuais milhões de pessoas vivem esse conflito entre dois tipos de paisagens sonoras. A substituição dos sons naturais pelo ruído urbano não é apenas uma diferença de paisagem visual — tem efeitos reais na forma como nos sentimos, no nosso bem-estar e até na nossa saúde mental. Tanto a literatura como a investigação científica apontam na mesma direção: o som influencia profundamente a forma como experienciamos os lugares.

O futuro das cidades depende, em grande parte, de uma forma mais sensível de pensar o espaço urbano. Uma abordagem que não veja o som apenas como algo a controlar ou reduzir, mas como um elemento com valor próprio. Se as paisagens sonoras restaurativas forem integradas de forma consciente, é possível criar cidades mais equilibradas, mais saudáveis e mais agradáveis para viver.

Sónia Alves, Team Lead Coordinator at an international engineering company

Para saber mais:

  • Aletta, F., Kang, J., & Axelsson, Ö. (2018). Soundscape descriptors and a conceptual framework for developing predictive soundscape models. Landscape and Urban Planning. 
  • Axelsson, Ö., Nilsson, M. E., & Berglund, B. (2010). A principal components model of soundscape perception. Journal of the Acoustical Society of America. 
  • Radicchi, A. (2018). The Soundscape Approach for Smart and Sustainable Urban Development.
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